Dhaka - Bangladesh

PT

Hoje vim de Bangkok, podia escrever sobre isso, porque já fui lá mais que muitas vezes e tem muito que se lhe diga, mas em vez disso decidi escrever sobre o lugar que até hoje mais me marcou, pela negativa. Antes que me esqueça, porque o que aconteceu não merece ser esquecido.

Dhaka 

Dhaka é uma cidade no Bangladesh, mas antes de falar da cidade e da minha experiência por lá vou falar do voo da ida e mais tarde da volta. 
O voo foi numa palavra assustador, durante o Boarding, que é o nome em inglês para quando estamos a embarcar os passageiros vejo os passageiros a passar por mim sem me dirigirem a palavra, estranho, apenas me oferecem o seu maior sorriso ou olham para o chão. Estes são todos iguais, magros, excessivamente magros, com a pele muito escura e sem saberem dizer uma palavra de inglês. Quase todos sorriam e sacavam do telefone para nos tirar fotos. Para a sua maioria era a primeira vez a voar connosco. 
A única coisa que todos traziam era um saco preto pequeno com a sua fotografia do lado de fora que devia ser onde mantinham os seus passaportes e alguns bens pessoais. Como a maioria não sabia escrever era como se identificavam, através da fotografia. Alguns traziam também sacos de duty free, transparentes que dava para ver serem brinquedos e/ou presentes, provavelmente para as famílias.
Durante o voo, a campainha não parava, pior que nos voos para índia que a campainha toca de 3 em 3 segundos aqui não parava. A maior parte nem queria chamar por uma de nós e muito menos era uma emergência era apenas um engano. Servimos a comida, estes comeram com as mãos, devoraram rapidamente tudo o que  aquele abastado tabuleiro continha e em muitos dos casos vomitaram de seguida. Outros arrotavam em alto e bom som para mostrar o quanto estavam satisfeitos. Quando perguntei à minha chefe de cabine o porque de tanta gente vomitar explicou-me que por estarem à vários dias sem comer, vêm um tabuleiro cheio de comida e comem tão depressa que vomitam. 
As casas de banho eram um sítio que metia medo, eles não sabem que é preciso puxar o autoclismo e nós tínhamos que (muito frequentemente) ir ao WC e puxar os autoclismos de maneira a manter as casas de banho utilizáveis. 
Pela primeira vez senti um sentimento novo por outro ser humano, enquanto lhes dava o que me pediam ou o que eu sabia que lhes ia fazer falta não queria que me tocassem, depois de terem comido com as mão, de não mostrarem qualquer tipo de higiene de irem ao quarto de banho e de não puxarem o autoclismo, tudo o que eu não queria era que me tocassem. Tudo era sujo, tudo estava sujo. Foi um sentimento para mim muito estranho e que até me fez sentir mal comigo mesma não sou uma pessoa nojenta, não com as outras pessoas, não tenho problema em tocar em qualquer pessoa e ajudar no que for preciso, sou muito humana até e sou daquelas poucas espécies raras que acham que podem mudar o mundo. Mas aqui tudo foi diferente sentia vontade de sair dali. Parecia que estava num filme e que a qualquer momento me iam dizer que aquilo não era real. 
Mas longe estava eu de esperar que a estadia ia ser tão má. 
Aterramos. De imediato e apesar da chefe de cabine dizer em inglês que têm que permanecer com os cintos de segurança, todos se levantam, como é habitual, digo em voz alta para por favor se sentarem e faço o gesto que reforça o que estou a dizer. Em vão porem, todos começam a abrir o porta bagagens mesmo quando o avião ainda está em andamento. A voz aumenta de tom, o por favor fica esquecido. De nada adianta, estão todos de pé. Sem saber o que espaço pessoal significa colocam-se todos em fila indiana mesmo colados a mim, eu faço o gesto para se afastarem de mim já que a linguagem falada de nada adianta. Eles afastam-se uns centímetros. Eu sorri porque apercebi-me que diga eu o que disser ninguem me entenderia. Um senhor dos poucos que falava ingles vira-se para mim e diz: -sabe o porque de eles se estarem todos levantar? - eu pergunto porquê, ao qual ele responde - à 3 anos que eles não vêm as famílias, estão ansiosos. 
É  verdade, aqueles senhores trabalham, 12 horas por dia 6 ou 7 dias por semana e por 3 anos não tinham tirados ferias. 
Eu senti-me pequenina, aliás minúscula. Eu ali a berrar para os homens se sentarem, eles sem perceberem nada a acharem que eu estava maluquinha quando eles estavam era ansiosos por ver os seus entes queridos. Eu estava a fazer o meu papel, aquilo para que fui contratada, para cuidar da minha e da sua segurança, porém nada estava a fazer sentido naquele momento. 
Desembarque completo, burocracias feitas, saímos do aeroporto em direcção ao Hotel. 
Durante o trajecto estava o sol a entrar pelos vidros fumados do autocarro a dentro, muito calor e de dentro para fora via-se uma cidade suja, muito suja. Cheia de pessoas, em autocarros que pareciam ser de papel, motas, bicicletas e todo o que lhes permitisse transportarem-se de uns sítios para os outros. 
O Hotel para contrastar com o que já tinha visto no trajecto foi um dos melhores que já fiquei até hoje, o meu quarto de banho era do tamanho do meu quarto, tinha uma banheira e um chuveiro de pé separados o quarto era muito confortável e tinha um ar de limpeza imaculada. A vista do meu quarto deixava já antever o que eu já esperava, por baixo da minha janela uma piscina linda que me fazia ter vontade se saltar mesmo daquela janela, por trás dos limites do hotel, uma zona feia com ar de favela de papel, mas uma mesmo suja. 
Fomos ao pequeno-almoço, todos juntos ainda de uniforme, uma delícia, a combinar com tudo o resto que estava dentro daquelas paredes. Eu e um colega combinamos que iriamos dar um passeio fora do hotel para ele comprar DVDs que pelos vistos eram muito baratos lá mas sobretudo para tomar um banho de realidade. 
Assim foi, mas antes de sairmos do hotel, liguei para o orfanato da recepção para eles virem recolher as coisas que normalmente a tripulação recolhe dos hoteis, shampoo, amaciador, gel de banho, cremes de corpo, escovas de dentes e mais umas quantas coisas que nós recebemos de graça nos quartos de hoteis e que eu tinha trazido de proposito para cá porque sabia que ia fazer a diferença para algumas crianças. 
À saída do hotel, estavam dois guardas com pistolas, umas grandes, como devem calcular não sei nomes destas coisas, mas eram grandes, passamos os guardas e viramos à direita para seguir pela mesma rua do hotel em direcção à loja de DVDs. O rapaz que foi comigo era loiro e muito alto e eu também não tenho a pele e cabelos muito escuros o que fez com que tivéssemos Turistas escrito na testa para todos os locais. 
De imediato duas crianças vieram ter connosco e disseram que tinham fome, perguntamos onde era o supermercado mais próximo e o que queriam comer. Disseram apenas arroz. (Aquele miúdo partiu-me o coração quando de tudo o que podia pedir pediu apenas arroz). Eles indicaram-nos o caminho para o supermercado, compramos 6 kg de arroz, dois chocolates e dois sumos e mais umas coisitas e assim se foi a grande parte da nossa allowance (dinheiro que recebemos na moeda local para comer ou gastar no que quisermos durante a estadia). 
Este foi o nosso pior erro, depois de lhes dar aqueles itens, vieram dezenas de crianças atras de nós o resto do caminho. Uma menina que devia ter uns 3 ou 4 anos seguiu-nos o caminho todo, esperou por nós depois de sairmos da loja de DVDs e na volta ao quarteirão. 
O que vimos foi chocante, as crianças no chão, a comer no chão, a dormir no chão sem qualquer tapete ou cobertor, quase nuas ou com pouca roupa, com as barrigas muito dilatadas, as meninas sem cabelos, as mães devem rapar para evitar piolhos e, todas com os pés e corpo sujos mas sobretudo uma carinha muito suja. Esta menina seguiu-nos com os outros, agarrava-nos às calças a implorar comida ou dinheiro. Os pais devem envia-los para pedir. 
Depois da volta ao quarteirão e já arrependidos e mais que arrependidos de termos deixado o hotel voltamos, onde só deixamos de ter meninos a agarrar-nos as roupas e a pedir junto daqueles dois homens armados, que os enxotaram como se de cães se tratasse. 
Eu e o rapaz não tínhamos palavras, olhamos um para o outro a minha vontade era de chorar e acho que a dele também. Sentamos-nos a beira da piscina, ele a beber coca-cola eu não conseguia digerir o que quer que fosse. No fim da coca-cola dele ele foi para o seu quarto e eu para o meu. Chorei, Chorei e adormeci a chorar. 
O que vi era irreal. Se se tratasse de adultos acho que não me tinha deixado naquele estado mas com crianças e quem me conhece um bocadinho que seja sabe que adoro crianças, deixou-me devastada. 
Prometi a mim mesma que nunca mais ia deixar o hotel se tiver a pouca sorte de ter que fazer aquele voo outra vez. Acabou mesmo comigo. 
Por mim tinha trazido todas aquelas meninas e meninos comigo e tratado deles.
No dia seguinte acordei melhor.
À vinda para cá foi a mesma coisa contando que as pessoas em vez de vomitarem desmaiaram por já não comerem à 3 dias. Inclusive uma senhora com dois filhos que desmaiou e eu e s meus colegas fomos com ela para a parte de trás do avião e enquanto lhe dava oxigénio dava-lhe também a mão para ela se sentir bem mais depressa. Os filhos depois de os encher de chocolates pus-lhes um filme e ficaram sossegadinhos sentados a ver o filme no lugar que era o deles, acho que nem se aperceberam que a mãe passou mal. Perguntei-lhe o que se passava foi aí que me disse que ia para os estados unidos e que gastou o dinheiro quase todo para os bilhetes então não tinha comido muito nos últimos três dias. 
Cheguei a casa e ainda em estado de choque comecei a pensar e repensar e cheguei a conclusão que nós podemos fazer muito mais, mas que somos egoístas, a vida no Dubai é tão luxuosa e chega a ser materialista e depois vai-se a um sitio daqueles em que a única coisa que as crianças querem é arroz para comerem e nada faz sentido. 
Eu continuo a juntar coisas que trago dos hotéis ou roupas que acho que já não me servem a mim nem a  ninguém que eu conheça em Portugal para levar, mas acho que se toda a gente fosse a Dhaka e visse o que eu vi muita coisa no mundo mudava, muita gente deixava de se queixar por isto e por aquilo e começava a dar graças a Deus por tudo o que tem, que é muito. 
Depois de retornar ao Dubai e apesar de estar já mais ''conformada'' com aquilo tudo tive umas 3 noites de pesadelos, depois passou.
Espero não voltar lá tão cedo.











O meu quarto

A vista do meu quarto


































E esta é Dhaka, até à próxima cidade,
beijinhos

Comentários

  1. Ao ler, até a mim me caíram lágrimas, vivemos por vezes num mundo à parte,senti-me com se estivesse dentro da tua viagem :) Continua a escrever assim *

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